Sobre a pergunta mais antiga e a mais atual, perene e autêntica das respostas

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Lá estava eu navegando por alguma rede social e com a TV ligada em algum noticiário de algum canal. De repente a TV tomou minha atenção e vi uma garotinha vestindo uniforme escolar, sendo entrevistada.

A repórter perguntou: “…hoje você tem 8 anos e quando você tiver 80, o que você vai querer ser?”. A garota olhou para ela com um traço de surpresa no rosto e com uma atitude decidida respondeu: “feliz! Eu quero ser feliz”. E saiu correndo para voltar a brincar.

Só a descrição da cena já valeria o post completo, mas como adoro elucubrar sobre cenas como essa vou prosseguir. Achei a pergunta fraca (ou tola) e é melhor explicar por que.

Primeiro, uma criança de 8 anos não tem condição de julgamento temporal (por pura falta de vivência e não por falta de inteligência), para projetar o que vai querer ser ao ter 18 anos. Quanto mais aos 80! Para uma criança de 8, velho é quem tem 30 anos. Você se lembra de como pensava sobre a idade em sua infância?

Segundo, essa criança vive em uma época à qual o recém-falecido e genial filósofo Zygmunt Bauman bem caracterizou como “pós-modernidade líquida”. Nada dura muito tempo. Não há previsibilidade para 1, 2, 3, 5 anos. Mudamos nossas identidades (e aquilo que desejamos) em consequência de mudanças externas cada vez mais velozes.  Assim, tentar levar uma criança de 8 anos a projetar uma ambição pessoal para um período de 72 anos no futuro é coisa de repórter não preparado, para dizer o mínimo.

Mas não é que a entrevistada deu nó em pingo d’água e ofereceu uma resposta que vai ser difícil de a liquidez da pós-modernidade histórica mudar? Como teria ela alçando essa “luz” tão rapidamente?

Tenho cá pra mim que a resposta pode ser dupla: conexão e integração. Conexão com suas emoções, para muito além do plano meramente racional (que inclui os sentimentos, é sempre bom lembrar) e integração de corpo, mente e alma, para muito além do intencional.

Essas características – conexão e integração – são aparentemente e infelizmente reduzidas ou mesmo perdidas por nós ao longo da vida, enquanto “educam” nossa criança para a vivência e convivência em uma sociedade reducionista, que atribui à faculdade psíquica razão um nível exacerbado de importância (quase suprema). A redução do ser humano caracterizando uma de suas quatro funções psíquicas (R.E.I.S. – razão, emoção, intuição e sensação) como tendo maior importância que as outras colabora para que nos afastemos do nosso estado natural, conectado e integrado.

E então crescemos e o mundo corporativo passa a cobrar de nós que sejamos mais empáticos, mais inteligentes emocionalmente, mais equilibrados etc e adere a práticas (de fato muito benéficas) para que possamos alcançar conexão e integração, tais como a meditação.

Meditar é excelente para nossa conexão e integração, de fato. Porém, tenho visto e ouvido muitas pessoas reportando as dificuldades que enfrentam para adotar essa prática.

Uma alternativa para quem busca a integração e enfrenta dificuldades para meditar seria trazer de volta a sua criança interior com toda a sua energia, abertura e disponibilidade para abraçar a vida como ela é. Isto é, com disponibilidade para abaixar o nível de crítica e abrir seu coração para novas possibilidades, como faz uma criança porque para ela, quase tudo são novas possibilidades.

Essa é, então, a dica deste post: se está achando difícil praticar a meditação na forma como ela tem se tornado mais e mais conhecida por meio de cursos de mindfulness, por exemplo, você pode escolher iniciar sua jornada por outros pontos de acesso. Alguns deles podem ajudar você a retomar contato com sua criança interna como a prática do desenho livre, de preferência com giz pastel ou de cera. Você pode também voltar a brincar como costumava fazer na infância, jogando queimada, bolinha de gude, ou outra opção de que gostava. Pratique um pouco de infância e vai ver como essa voz interna difícil de parar durante a busca do silêncio meditativo vai dar uma voltinha lá longe.

É por meio de práticas como essas que trazemos nossas inspirações e energia para o alcance da felicidade comumente desejada pela maioria das pessoas, seja aos 8, aos 18, aos 30, aos 50 ou aos 80 anos. E aí? Ficou com vontade de brincar? Eu – agora – estou falando sério, mas “todo dia é dia e toda a hora é hora” para manter sua criança interna mais presente e fortalecida.  Vai por mim! 😉

1 Comentário

  1. Gizela da Silva Moreno disse:

    Gostei muito do artigo, Bel. Fiz um curso de meditação transcendental semana passada e está parecendo mais fácil do que outros métodos. Mas gostei da dica para trazer de volta a criança interior, valeu!

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