Sobre júniores, sêniores e um mundo empresarial que ficou ligeiramente louco.

Quando a morte leva alguém que eu admiro
fevereiro 9, 2017
Enquanto eu cortava corações
julho 2, 2017

Escrevo em uma manhã de domingo. Na semana passada tive a oportunidade de interagir com muitas pessoas. Desde jovens em sua(s) primeira(s) experiência(s) profissional(ais), passando por profissionais em transição de carreira (que eu não denominaria desta forma, mas já virou hábito assim nomear o desemprego em tempos de crise), até aposentados a quem a própria crise colocou nesta situação, mas que não desejavam ainda ter se desligado do mercado de trabalho.

Duas coisas me chamaram muito a atenção e as compartilho aqui para refletirmos juntos:

1)     os jovens profissionais (sem querer generalizar) não estão recebendo suficiente e necessária orientação em termos de processos de execução e qualidade de entrega, talvez (muito provavelmente) em função da ausência de sêniores com vivência/experiência no contexto. Isso tem degradado a qualidade de produtos e serviços entregues aos clientes (consequentemente degradando o potencial de receita e crescimento) e – simultaneamente – tem sobrecarregado os jovens em termos de “horas trabalhadas”, que acabam se tornando “horas desperdiçadas”, já que não sabem como resolver os desafios sem o ferramental adequado para isso (e cria-se uma bola de neve). Além disso, a situação prejudica também a autoestima desses jovens, que muitas vezes são questionados publicamente por chefes com postura arrogante e que se utilizam de agressividade e palavras de baixo calão aos gritos, o que – por si só – já constituiria assédio moral no trabalho. Essas situações os levam, por uma questão de cultura da pressa, a uma consulta psiquiátrica em busca de um “remedinho” que os amorteça e que lhes permita prosseguir no ritmo, sem sequer pensar na alternativa de encarar a situação, enfrentando e resolvendo o enredo. Por fim, observei que essa situação desconecta o jovem da organização e, em seus relatos, o discurso é tipicamente algo como “aqui eles fazem/fizeram dessa forma” e não “aqui nós fazemos/fizemos dessa forma”. Isto é, não há (e nem pode haver) engajamento em uma cultura que leva o jovem ao sofrimento, por isso, ele se desconecta “deles” e se pergunta “onde é que eles estão querendo chegar?”. Não sendo capaz, porém, de contribuir para que se chegue nesse ”lá”, que ele nem sabe onde ou o que é, e pelo qual não se sente atraído/estimulado a perseguir.

2)     os sêniores, sejam em transição, sejam aposentados (mas também sem querer generalizar) questionam-se sobre os “erros” cometidos no passado, avaliando que poderiam estar em situação diferente no momento se tivessem sido mais planejadores, ou mais arrojados, ou mais adaptáveis, ou algo parecido. Neste ponto, é importante lembrá-los que não se pode mudar o passado, mas que se pode aprender (e ensinar) por meio dele. Ao mesmo tempo, os sêniores têm, porém, a consciência do quanto ainda têm com que contribuir para com o mundo do trabalho e a produtividade de empresas. Sentem essa necessidade e têm a autoestima também reduzida (o que também os conduz a um estado de sofrimento) em função de se sentirem rejeitados por um mercado que contrata visando “energia jovem”, sem avaliar se essa energia é dissipada ou desperdiçada em função de ser aplicada de forma inadequada. Com relação a esse aspecto (desperdício de energia por falta de conhecimento ou experiência), acho sempre interessante lembrar uma frase de Abraham Maslow “para quem só tem martelo, todo problema é prego”.

Tenho visto e ouvido muitos exemplos desse tipo de “solução do martelo” acontecendo no dia a dia de empresas que repudiam o jeito old fashion de enfrentar desafios de negócios por meio da busca e adoção da melhor ferramenta conhecida e disponível, mesmo que encontra-la demande tempo. Esse jeito old fashion, na maioria das vezes, é aquele que foi possível desenvolver com a soma de conhecimento e experiência adquiridos ao longo dos muitos anos em que também se aprendeu a não dissipar energia, utilizando-a de maneira mais eficiente e sustentável.

Pois bem, dado esse relato, com a inserção de pequenas reflexões pessoais, deixo aqui o meu convite para todos os tomadores de decisão que reconhecerem ao menos um desses aspectos em seu dia a dia nas empresas: que tal se derrubássemos os muros construídos sobre conceitos e preconceitos que não estão gerando resultados positivos para as pessoas (jovens e sêniores) e realmente nos lembrássemos dos bons modelos de gestão e de liderança (como o BSC – Business Score Cards, por exemplo), que claramente mostram que a base dos resultados operacionais, mercadológicos e financeiros de uma empresa é formada pelo Capital Humano, Cultural e Organizacional (além do tecnológico, claro)?

Traduzindo: que tal parar de “amassar” os jovens sob uma pressão cuja origem é a própria inabilidade da liderança, e sob uma linguagem e um comportamento que até eles mesmos, com toda sua forma aberta de interagir, julgam desrespeitosos? Que tal parar de discriminar os sêniores avaliando-os como ultrapassados e aprender a liderar montando equipes baseadas na melhor contribuição que cada um tem pra dar? Será que vai custar mais caro ou será que vai gerar mais retorno? Minha aposta é na segunda opção! E a sua?

Obs: sei que esses relatos não abarcam 100% do mundo empresarial. Espero que não abarquem uma porcentagem predominante, também. Porém, tenho dúvidas quanto a isso.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *