Enquanto eu cortava corações

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É comum eu usar manhãs de domingo para fazer algo que me ajude a relaxar e escrever é uma das minhas receitas para o relaxamento. Então, cá estou eu criando um novo texto. No último domingo (25/06), porém, eu fiz outra coisa durante a manhã: eu cortei corações. Foram, ao todo, 414 corações, mas confesso que não os cortei sozinha. Meu companheiro de todas as horas e de todas as ações esteve me ajudando. Cortou cerca de 50% deles, pelo que sou muito grata.

Vou usar esses corações (são os da foto no topo e no fim da página) para uma dinâmica no próximo fim de semana, em que estarei em Manaus para ministrar uma disciplina no MBA Executivo de Liderança e Master Coaching do ESB. Será minha primeira vez atuando com essa instituição de ensino e confesso que estou curiosa sobre as novidades que podem surgir. Confesso, também, que como estarei em sala de aula no próximo domingo, sabendo, portanto, que não escreverei novo texto nesse dia, hoje escreverei um texto mais longo. Espero que você o aguente. 😉

Este artigo, porém, não é sobre a instituição de ensino, sobre minha disciplina, sobre Manaus (cidade que eu adoro), nem mesmo sobre os 414 corações. Ele é sobre o estado que alcancei enquanto os cortava, tem a ver diretamente com parte da ementa que apresentarei em sala, mas muito mais com parte da minha história profissional.

Tudo começa no ano de 2000. Naquela época eu morava em Fort Lauderdale, pois havia sido expatriada pela empresa na qual atuava. Estava trabalhando sob uma forte pressão e era responsável pelo gerenciamento cruzado de um time composto por engenheiros, analistas financeiros e profissionais de marketing. Juntos, desenvolvíamos planos estratégicos e de negócios que pudessem auxiliar nossos clientes em sua entrada no mercado latino-americano de telecomunicações e de dados.

Foi um tempo muito peculiar. Um tempo em que iniciei um longo processo de autodescoberta, de mudanças, de transformações internas e de evolução pessoal que me trouxeram até o ponto em que me encontro hoje: a mesma pessoa na essência, uma pessoa radicalmente diferente em todo o resto. É sobre isso que quero escrever hoje.

Pois bem, naquele tempo eu me encontrava em uma situação com a qual muitos profissionais sonham. Expatriada por uma multinacional, eu tinha carro e apartamento da empresa, uma ajuda de custo para viver fora de minha terra, um ótimo salário executivo sendo pago no Brasil, oportunidade de conviver com profissionais de diversas nacionalidades e culturas, oportunidade de viajar pelos EUA nos finais de semana e outras tantas coisas boas que são fáceis de serem imaginadas. Contudo, não estava nada feliz! Eu, particularmente, nunca havia sonhado com tudo isso e não havia me preparado para essas conquistas. Elas vieram como fruto do que plantei, mas me alcançaram como uma colheita inesperada.

Muitos podem usar o velho ditado “Deus dá nozes a quem não tem dentes”, para expressar sua opinião quando conto isso. Acho que eles (também) devem ter razão. O fato é que acabei usando as nozes como se amendoim fossem. Porém, foi ali, naquela situação, que comecei a perceber alguns sinais de que tudo precisava mudar. Considero hoje que aproveitei as nozes de outra forma e que, talvez, só há poucos anos eu tenha concluído quais são os dentes certeiros para roê-las.

Vamos aos fatos: em uma bela manhã de domingo daquele ano 2000, no contexto de fazer algo para relaxar, fui ao Sawgrass Mills, estacionei ao lado da Target e decidi entrar por ali. Como sempre fazia ao entrar na Target, o primeiro estande que fui visitar foi o de livros. Enquanto eu me aproximava notei que um deles parecia brilhar para mim, destacando-se dentre todos. Eu me aproximei e li seu título “Wherever you go, there you are”.

Tamanhas eram minha desconexão interna e minha insatisfação pessoal naquele momento, que tudo que pensei foi “quem terá sido o idiota que escreveu um livro com esse título?”. Mas peguei o livro e o abri aleatoriamente. Caí exatamente na página 195, cujo título é: “Wherever you go, there you are”. Então o despertador interno tocou! Ainda que tenha tocado bem baixinho naquele momento.

O que o autor, Jon Kabat-Zinn, – (de quem eu nunca tinha ouvido falar, mas que já era relativamente conhecido à época e que hoje é extremamente respeitado no mundo todo por ter trazido do oriente para o ocidente o conceito de mindfulness, tendo também conquistado o mundo corporativo a ponto de o Google tê-lo contratado para ministrar treinamentos para suas equipes) – falava naquela página? Ele falava sobre pessoas como eu. Talvez como você?

Na página 195, ele falava sobre pessoas que mudam. Mudam de emprego, de cidade, de relacionamentos etc, acreditando que poderão encontrar “lá fora” uma solução milagrosa que os torne mais satisfeitos, mais felizes, quando – na verdade – essa solução milagrosa só pode ser encontrada dentro de si. Bingo! Comprei o livro. Como você pode ver pelas fotos, está comigo até hoje.

A partir dali, iniciei (e terminei) outros processos de mudança. Voltei a morar no Brasil. Mudei de emprego mais umas duas ou três vezes (mudar de emprego fazia parte de mim à época). Abri duas empresas (uma que fechei dentro das estatísticas nacionais, um ano após abrir, e outra que fechei – com a mesma alegria com a qual a abri – no ano passado, após 15 anos de atuação profissional por meio dela).

Ao longo dos 15 anos em que trabalhei pela Playit (a empresa que fundei em junho de 2001 e fechei em julho de 2016) realizei muitas outras mudanças. Todas elas, porém, dirigidas pelo processo de transformação interna.

Hoje posso dizer que essa jornada, que resumi nos poucos parágrafos anteriores, foi uma jornada de crescimento e de evolução pessoal. Posso afirmar com segurança que ter deixado a área de telecomunicações, a vida de executiva e a atuação com estratégias de negócios e mercados, e ter me direcionado para a psicologia (fiz uma pós lato sensu, e duas stricto – mestrado e doutorado, que concluirei dentro de um ano – e pretendo ainda fazer a graduação na área), e ter me direcionado também para um trabalho com múltiplas vertentes e formas de atendimento, foram consequências de eu ter compreendido fartamente – uma compreensão só alcançada ao longo desses tantos anos – o conceito simplificado por Kabat-Zinn na frase que inicialmente considerei estúpida: “wherever you go, there you are”. Acho, agora, que “estúpida” estava eu quando a li pela primeira vez!

Hoje costumo compartilhar esse pequeno trecho de minha história em diversos posts e palestras, sempre que tenho a oportunidade de trazer o assunto à pauta. É o que vou fazer também em sala de aula na próxima semana, pois vou falar de bem-estar subjetivo (que é diferente de felicidade), de realização pessoal, de engajamento, de emoções positivas, de fluxo e, claro, de mindfulness. Tudo isso é hoje trabalhado na academia e na prática, por meio do desenvolvimento dos estudos da Psicologia Positiva (e, na minha humilde forma de ver, também e anteriormente da Psicologia Transpessoal).

Vou falar também sobre como esses e outros conceitos – que são científicos – têm sido confundidos por muitos com autoajuda, adiantando que uma coisa é ciência e outras, bem diferentes, são a autoajuda, as opiniões (senso comum), as palestras motivacionais vazias (não são todas elas que são vazias), ou mesmo a banalização de outras ciências, quando interpretadas erroneamente, como é o caso da física quântica. Vamos debater essa mistura em sala de aula. É por isso que quem batizou a disciplina (não fui eu), batizou-a como Psicologia Positiva & Física Quântica.

Cá entre nós, fico p da vida quando vejo alguém sugerindo que é preciso/importante/possível dar um “salto quântico” para atingir uma determinada meta de mudança/crescimento. Como alguém que vem mudando há 17 anos e vem trabalhando com as mudanças alheias desde 2009 eu quero fechar este artigo dizendo que mudar, transformar e evoluir são processos que demandam muita dedicação para que os resultados alcançados sejam os mais positivos possíveis. É preciso clareza, comprometimento, dedicação, autoeficácia, visão, engajamento, resiliência, autorregulação e muitos outros ingredientes.

Tudo isso pode ser desenvolvido em/por qualquer pessoa que realmente deseje fortalecer essas competências em si. Mas acredite-me: não é quântico! Há muito trabalho a ser feito. A boa notícia é que esse trabalho é altamente compensador. Pode acreditar em mim!

Ah, faltou eu falar sobre o estado que alcancei cortando corações: foi um verdadeiro estado de atenção plena (mindfulness) unido ao estado de fluxo, que é definido como aquela sensação que a gente tem quando está sendo adequadamente desafiado e utilizando ali a carga também adequada de suas habilidades. E, parafraseando Olavo Bilac alguém poderia perguntar: “ora, cortar corações? Certo perdeste o senso!”, questionando o nível de desafio ou de habilidade requeridas pela tarefa. E eu lhes diria, no entanto: “amai (que é uma habilidade também), amai para entender! Pois só quem ama seu trabalho (e seus alunos), corta corações em uma manhã de domingo, praticando mindfulness e se sentindo no fluxo!”

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