Quem escolhe, quando você escolhe? – parte 1

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Quem escolhe, quando você escolhe? – parte 2
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Esta semana li muitos posts e artigos publicados em diversos sites, em especial um grande volume deles oriundo do Linkedin. Dado o conteúdo, pensei em escrever um artigo com o título “Quem escolhe, quando você escolhe?”. Ao me sentar para fazê-lo, porém, veio à minha lembrança um conto que escrevi entre 1999 e 2002 (não tenho mais certeza das datas).

Achei que esse conto seria uma ótima abertura para o conteúdo que eu gostaria de apresentar a respeito do “fazer escolhas” e do panorama geral que tenho observado nas redes sociais. Por esse motivo, resolvi postá-lo hoje e, nas próximas partes deste texto, abordarei o tema central que ora apenas introduzo. Tomara que você fique comigo para as próximas etapas da leitura. Eis o conto:

O medo do olhar do outro (ou Joana e novas razões para seu comportamento)

Não contava com a sorte, uma vez que nunca a tivera. Pensava que a vida iria se desenrolar seguindo sempre o mesmo passo sincopado e em fermata. Ao menos era assim que sempre se sentira – uma desarranjada representante da espécie, em eterno compasso de espera.

Num dia qualquer de qualquer mês anterior a julho de 1997 surpreendeu-se a chorar, enquanto lia quadrinhos de jornal. Matavam Calvin e, de alguma forma, com ele uma parte lúdica que ainda mantinha viva dentro de si.

 

O dedo apontado, porém, para o futuro, as palavras de incentivo à exploração do desconhecido e o sorriso aberto naquele ícone que representava o espírito inquieto que já tivera, foram bastantes para mexer com toda a sua ausência de propósitos. Descobriu que sofria de uma doença grave e extremamente comum – o medo do olhar do outro.

Acertado o diagnóstico, a cura seria questão de atitude. Remédios amargos, mas certeiros.

Carecia de leveza, mas não conhecia a receita. Resolveu começar pela coragem. Embora não fosse amiga íntima, aos menos era mais conhecida.

Já acostumada a se vender, não o corpo, mas a mente, continuou no mesmo emprego meio-sangue por mais alguns meses. Tempo suficiente para se organizar. O medo do olhar do outro parecia crescer enquanto os preparativos se adiantavam. Era um monstro escuro e com dentes pontiagudos. Prestes a atacar interna e externamente.

Ensaiava palavras em frente ao espelho. Recontava passos decididos de partida pelo corredor do escritório. Nas reuniões de trabalho, testava o sarcasmo em respostas internas. Nunca conseguia pronunciá-las, de fato. Pensava crescer no silêncio, mas o medo do olhar do outro não a libertava.

Aos poucos e ainda em silêncio, percebeu quanto suas amigas também eram afetadas pela mesma doença. Na verdade os amigos também. Assumiu que assim também seriam os inimigos, se os tivesse. Não os tinha porque os desinteressantes jamais provocam inimizades.

“A humanidade sofre de medo do olhar do outro”, escreveu em sua agenda. “Não consegue ver a realidade sob uma perspectiva exclusivamente pessoal edificante. Necessita de comparações e sobrevive de questionamentos sobre a liberdade. Medo. O medo do olhar do outro destrói a criatividade, a beleza, a autenticidade. Eu tenho medo do olhar do outro. Eu penso em me libertar.”

Os meses passavam. A coragem, bastante escassa se não falsa, não trouxera a leveza. O medo do olhar do outro pesava em todos os ambientes por onde passava.

Em outra agenda, porque o tempo passara, anotava seus planos. Depois da demissão iria estudar na Panamericana. Vender-se nas esquinas. Não o corpo, não mais a mente, mas suas criaturas. Iria conseguir um espaço na Benedito Calixto. Vender nas noites, nos bares da Vila Madalena. Não seria exatamente famosa, que não tinha pretensões, mas ao menos seria respeitada pelos que a encontrassem no caminho. Não mais uma sombra passante. Uma sombra de medo. De medo do olhar do outro. Seria completa e livre. Livre do medo do olhar do outro.

À medida que o tempo passava, a consciência do medo parecia fortalecê-lo. O emprego meio-sangue tornava-se mais importante. Ficar calada nas reuniões, com um leve sorriso sarcástico nos lábios, deu-lhe uma aparência mais inteligente. Veio uma promoção. O emprego já era quase um puro-sangue. A idade certa já passara. A moçada da Panamericana não combinaria com seu temperamento. A Benedito Calixto estava lotada em todos os seus espaços. Muitos já eram reconhecidos na noite da Vila Madalena e como já dizia Pessoa – há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!  Só mesmo o medo do olhar do outro poderia ser tão amplo a ponto de abranger a todos.

Lia muito. Buscava nos livros exemplos de caminhos, mas deplorava autoajuda. Gostava de Isabel Allende. Tentava entender Clarice. Às vezes conversava com Borges, mas sempre se sentira Kafkiana.  E tinha medo.

Naquele que pensou ser o seu real primeiro gesto de coragem passou pela farmácia e tentou aviar uma receita falsificada. Não conseguiu e o farmacêutico ainda reteve o papel. Irritada, voltou para casa e trancou-se na cozinha. Sentindo o cheiro cada vez mais forte, e já enfraquecida pela asfixia, ainda teve tempo de escrever num post-it que ficou pregado na geladeira “estou começando a perder o medo do olhar do outro”.

 

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