Quem escolhe, quando você escolhe? – parte 3

Quem escolhe, quando você escolhe? – parte 2
julho 23, 2017

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Você já se perguntou alguma vez para que serve o medo? Há quem acredite que ele pode ser útil para empurrar a pessoa que o sente para frente. Pode ser que sim, em determinadas circunstâncias, mas o medo pode ser também o oposto: a emoção que congela a pessoa no estado em que se encontra, impedindo-a de seguir em frente.

Seja como propulsor, seja como congelante, o medo pode ser visto como um guardião. O guardião de um estágio, de uma informação. Quer chamar de “segredo”? OK! Vamos, então, chamar: o guardião do “segredo” para o próximo nível na jornada da evolução. Se a vida fosse um vídeo game os mais diversos medos seriam, com certeza, os inimigos que nos impedem de passar para a próxima fase.

Porém, como já dizia Sun Tzu, general e estrategista chinês, em A Arte da Guerra: “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas”. E sabe qual é a boa notícia desse caso? O “inimigo” e o “si mesmo” são duas facetas do mesmo ser.

Perceber, sentir, intuir, vivenciar… compreender isso são experiências fundamentais para o desenvolvimento pessoal e profissional.  E veja que eu não simplifiquei a frase dizendo simplesmente “entender/compreender” isso. Por quê? Porque o entendimento só é real e completo se englobar razão, emoção, intuição e sensação. É a integração desses quatro elementos psíquicos que possibilita à pessoa integrar seu ego (tão necessário à vida, mas que por vezes se comporta como “o inimigo”) e o self (o “si mesmo”).

Nesta terceira e última parte do artigo “quem escolhe, quando você escolhe?” quero convidar você a conhecer um pouco mais sobre os medos que restringem pessoas de alcançarem as fases do game em que elas se sentem (e são reconhecidas) como inovadoras, transformadoras, facilitadoras, inspiradoras, fazedoras de diferença, parceiras, mentoras, visionárias e outras coisinhas mais sonhadas por muitos.

As perguntas iniciais para reflexão e acompanhamento do texto são: com relação à sua vida profissional você tem medo? De quê?

Richard Barrett, consultor e autor de vários livros dentre os quais eu sugiro que você leia ao menos “O novo paradigma da liderança”, desenvolveu um trabalho que integrou conceitos de Maslow, Graves, Assagioli e outros psicólogos, com Wilber (filósofo) e também com autores da área de administração e de liderança. Nessa integração Barrett alcançou uma forma simples e clara de expor três tipos básicos de medo, que limitam pessoas e organizações em seus caminhos de mudança, transformação e evolução.

Esses medos (em alguns casos, ansiedades) são sentidos pelo ego (o self não sente medo) e estão relacionados à satisfação das necessidades mais básicas que todos nós precisamos atender em nossas vidas. Eles são: o medo de não ter (o suficiente); o medo de não ser amado/gostado/apreciado/reconhecido (o suficiente); o medo de não ser (o suficiente).   Nessa ordem, os medos estão relacionados ao atendimento de nossas necessidades básicas de sobrevivência, relacionamentos e autoestima (entendeu à referência à Maslow?).

Pode ser que você já tenha se libertado de todos eles e seja uma pessoa que tem seu ego bem estruturado e muito saudável. Ótimo! Se for esse o caso, seu “potencial inimigo” ego já foi transformado em amigo propulsor de sucesso e de autorrealização.

Pode ser, porém, que você ainda necessite se libertar de alguns aspectos desses medos. Essa libertação é necessária para sair do primeiro nível do game e ir para o segundo, onde você pode ser considerado “líder de si mesmo”. Ser líder de si mesmo é pré-requisito para ser um bom líder de outros (seguir para os outros níveis do game), como bem mostra Barrett.  E o que tem o medo a ver com isso? Líderes de si mesmos sabem como fazer escolhas sem serem influenciados pelo medo (daí o nome deste artigo: “quem escolhe, quando você escolhe?”).

Vamos olhar um pouco para cada um desses três medos, visando que você possa identificar o seu próprio estágio nesse game que, na verdade, não é só profissional, embora o foco aqui seja esse.

Medo de não ter o suficiente: esse medo está muito popular hoje em dia, em função do grande número de desempregados e das pessoas empregadas que temem se juntar a eles, mas não aparece apenas em momentos como esse, de crise. O medo de não ter o suficiente pode levar a pessoa se comportar de forma desconfiada, agir com excesso de controle, ou excesso de cautela, e até mesmo a se comportar de forma gananciosa.

O excesso de controle e/ou de cautela, por exemplo, impedem que o indivíduo tome decisões com tranquilidade e confiança e podem ser “pedras amarradas nos tornozelos”, que impedem a pessoa de confiar em si e nos outros. Essa confiança é imprescindível para superar desafios e assumir os riscos necessários para passar para o próximo nível do game.

Um exemplo prático: recentemente participei de uma reunião com os sócios de uma empresa cliente. Nessa reunião eles avaliavam possíveis sucessores para determinadas funções na empresa. Sobre uma das avaliadas para uma das posições um dos sócios afirmou: “não, ela é cautelosa demais. Não vai conseguir tomar decisões na velocidade que nós precisamos”.

E você? Tem agido com excesso de cautela ou apenas com a cautela necessária para avaliar cuidadosamente os riscos sem ter medo de assumi-los? E o que dizer sobre o controle, ou mesmo a ganância? Uma avalição desses aspectos, e dos próximos a serem mencionados com relação aos outros medos, será muito útil para a compreensão do seu momento atual de carreira e sobre a possibilidade de alguns medos estarem – eventualmente – impedindo você de alcançar suas metas.

Medo de não ser gostado (amado, admirado etc) o suficiente: todos nós precisamos nos relacionar com outras pessoas e é natural que esses relacionamentos influenciem o nosso comportamento. No entanto, alguns indivíduos acreditam que é importante serem gostados e/ou admirados por todos durante o tempo todo. Isso limita sua capacidade de tomada de decisão e de ação, pois sentem receio que determinadas atitudes, se tomadas, poderão influenciar a visão que determinadas pessoas têm a seu respeito e farão com que elas os apreciem menos.

Não é possível agradar a todos o tempo todo! Porém, o medo de não ser gostado faz com que algumas pessoas tentem alcançar essa façanha. E isso faz com que elas se tornem mais frágeis, sem que percebam.

Pode parecer contraditório, mas pessoas que têm medo de não serem suficientemente gostadas/amadas/admiradas podem apresentar comportamentos do tipo fofoqueiro (se a pessoa sabe algo interessante/importante e conta pra você, você possivelmente gostará mais dela. Esse é o racional por trás do comportamento), ou manipulador (a pessoa acredita, mesmo que inconscientemente, que manipulando pensamentos e sentimentos alheios ela se tornará mais importante e – possivelmente – mais admirada. Isso pode leva-la a assumir o comportamento do “bonzinho”. O “bonzinho”, porém, não é capaz de tomar atitudes duras quando são necessárias).

Outro tipo de comportamento que pode aparecer com o medo de não ser gostado é do tipo acusador ou procurador de culpados (pessoas que precisam mostrar que “a culpa não é delas”, para evitar que outros a admirem menos). O acusador tipicamente não enxerga o paradoxo entre “acusar para se livrar da culpa” e o quanto acusadores não são apreciados pelos outros, especialmente se estiverem vivenciando uma situação de poder.

Um exemplo: há alguns anos tive um cliente de coaching, co-fundador da empresa onde era um dos diretores, que vivia aos berros com seu sócio ou com seus funcionários. Devido à excessiva identificação que sentia com sua empresa (como se ela e ele fossem um só), ele brigava por cada erro ou por cada detalhe que não alcançasse a qualidade do seu senso de perfeição, assumindo sempre um papel “acusador”. Isso implantava um ambiente de medo na empresa, estabelecendo relacionamentos que não eram saudáveis. Nós trabalhamos para identificar as raízes desse medo e para agir sobre elas.

Ele foi, então, capaz de se libertar de seu medo de não ser gostado. Mudou o foco da “acusação” para o de “resolução de conflitos” e isso possibilitou a mudança de fase do game. Passou a ser reconhecido pelos funcionários não mais como um “chefe cobrador e acusador”, mas sim como um “líder facilitador e inspirador”. Os feedbacks que recebeu depois disso o posicionaram como o modelo que muitos dos colaboradores queriam seguir.

E você? Já se pegou alguma vez fofocando, manipulando ou acusando alguém? Se sim, isso já ficou lá longe no passado, mostrando que você também mudou de fase, ou ainda está penando para sair desta etapa do jogo?

Medo de não ser o suficiente: acho que é fácil perceber que o que está em questão aqui é o nível de autoestima do indivíduo. Quando uma pessoa não reconhece suas próprias qualidades, capacidades, competências, forças etc como sendo suficientes para suportar e conduzir sua jornada na direção que almeja ela pode se envolver em brigas (jogos) pelo poder e por status.

A pessoa pode, também, conduzir sua vida mais pelo “ter”, do que pelo “ser”, identificando-se mais com a imagem que constrói e mostra para o mundo, do que com sua verdadeira essência. Isso indica que o ego está mais próximo e identificado com a persona do que com o Self (se você não leu a parte 2 deste artigo e/ou não entendeu essa afirmação pode ler aqui que ficará mais claro). Essa identificação com a persona pode impedir a passagem para o próximo nível  do game, no qual o desafio exige adaptabilidade/flexibilidade como uma das forças a serem utilizadas.

Em tempos de desemprego, por exemplo, a identificação com a persona pode “cegar” o indivíduo, fazendo-o acreditar que ele “é X”, onde X = um cargo em determinado setor e impedindo-o de compreender que ele “esteve X”, mas pode estar qualquer outra coisa que seja compatível com seus anseios e desejos e com que possa contribuir para a sociedade de forma geral, sem sentir a dor de uma “queda” por eventual mudança de status.

Um exemplo: aqui nem quero citar um caso de transformação ou reposicionamento, mas uma lembrança que me veio de um post que vi alguns anos atrás. Foi publicado por um cliente, empresário, a quem aprendi a respeitar independente de todas as muitas diferenças que temos com relação a nossas visões do mundo, da vida, da política e dos relacionamentos. Naquele post e em outros aspectos ao longo de anos de relacionamento distante que mantenho com ele, aprendi a reconhecer os pontos que temos em comum (sempre há, acredite em mim).

Pois bem, o post desse ex-cliente trazia uma foto de um Camaro amarelo estacionado ao lado de um barraco de madeira em péssimo estado com uma frase que se tornou muito popular nas redes sociais e da qual eu desconheço o autor: “Status é comprar algo que você não precisa, com o dinheiro que você não tem, para mostrar às pessoas de quem você não gosta aquilo que você não é”. Acho que não preciso falar mais nada, né? 😉

E você? Tem vivido a vida pra mostrar a sua persona para as pessoas que não importam, enquanto seu verdadeiro eu sofre (como diriam os norte-americanos struggle) para se libertar?

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